Evariste Galois


Évariste Galois
(1811-1832)


Citações

Período Histórico (Cenário)

A bit of History

A Vida de Évariste Galois

Em Paris, na obscura manhã do dia 30 de maio de 1832, perto de um pequeno lago e não tão longe da pensão Sieur Faultrier, Évariste Galois confrontou-se, num duelo com pistolas e foi atingido no estômago. Horas depois, estirado no chão, ferido e sozinho, Galois foi encontrado por um camponês que passava pelo local. Ele foi levado para o Hospital Cochin, onde morreu no dia seguinte nos braços de seu irmão Alfred, após recusar os serviços de um padre. Tivesse Galois vivido outros cinco meses, teria então completado 21 anos.

Évariste Galois nasceu na pequena aldeia francesa de Bourg-la-Reine, no dia 25 de outubro de 1811. Quando Évariste tinha apenas quatro anos de idade, seu pai foi eleito prefeito de Bourg-la-Reine. Nicolas-Gabriel Galois era um homem culto e cortês e durante seu mandato como prefeito conquistou o respeito da comunidade. Fora da política, seu maior interesse parece ter sido a composição de versos satíricos. Galois herdou de seu pai a veia poética e de sua mãe a melhor instrução possível até os 12 anos, quando o mandou para o Liceu de Louis-le-Grand, em Paris. Aquela casa de ensino mais parecia uma relíquia da idade média, dominada por um carrasco que fazia as vezes de diretor. Normalizada a vida no Liceu, Évariste continuou a ouvir suas aulas e dar conta das obrigações razoavelmente, graças principalmente à magnífica base primária que sua mãe lhe havia dado. Apesar de ter brilhado como aluno, no primeiro ano, Galois jamais foi um estudante atencioso aos ensinamentos. Sua mente estava quase sempre fora da classe de aula. Para ele aquelas preleções nada representavam, pois dentro de seu organismo já havia o gérmen da criação.

No ano seguinte, quando Galois tinha 13 anos, a Matemática invade todo o seu corpo e, ele se desinteressa pelo estudo da Retórica. A esta altura cai-lhe às mãos a Geometria de Legendre que Galois lê rápida e sofregamente a interpreta tão bem quanto seu autor. Os compêndios relativos à matemática que circulavam no Liceu, nunca mereceram atenção de Galois pois eram demais triviais.

Foi somente com a idade de dezesseis anos que Galois pôde fazer seu primeiro curso de matemática. A ânsia de Galois pela matemática logo superou a capacidade do seu professor, e assim ele passou a estudar diretamente dos livros escritos pelos gênios da época. Indubitavelmente Galois recebeu de Lagrange suas idéias iniciais em Teoria das Equações. Isto ocorreu em fevereiro de 1827, quando descobriu textos de Legendre sobre geometria e logo após, um exemplar original de Lagrange : Resolução de Equações Numéricas (Equações Algébricas) Teoria das Funções Analíticas e Lições sobre o Cálculo de Funções. Havia um caminho claro para o jovem prodígio, todavia seu brilho seria o maior obstáculo ao seu progresso. Embora soubesse mais matemática do que seria necessário para passar nas provas do Liceu, as soluções de Galois eram freqüentemente tão sofisticadas e inovadoras que seus professores não conseguiam julgá-las corretamente. E o jovem gênio não melhorava a situação com seu temperamento explosivo e uma precipitação que só conquistava a inimizade de seus tutores e de todos os que cruzavam seu caminho.

Galois tentou o exame da École Polytechnique, sem a ajuda usual de um curso preparatório em matemática e então foi reprovado. Galois não desistiu. No mesmo ano, 1828, ele entrou no curso de Louis Paul Emile Richard, um distinto professor de matemática. Richard o encorajou e até defendeu a idéia de que Galois deveria ser admitido sem a necessidade de um exame. Os resultados deste encorajamento foram espetaculares e Galois publicou seu primeiro trabalho ("Prova de um Teorema sobre Frações Periódicas Contínuas") em abril de 1829 no "Annales de Gergonne". Um ano após a primeira tentativa, Galois novamente realiza o exame de admissão para a Polytechnique e mais uma vez seus saltos lógicos na prova oral só confundiram seu examinador, Monsieur Dinet. Sentindo que estava a ponto de ser reprovado pela segunda vez, e frustrado por sua inteligência não estar sendo reconhecida, Galois perdeu a calma e jogou um apagador em Dinet, acertando em cheio. Nunca mais ele voltaria a entrar na Polytechnique.

Sem deixar se abalar pelas reprovações, Galois continuou confiante em seu talento matemático. Ele prosseguiu com suas pesquisas e seu principal interesse era em teoria das equações ("Teoria de Galois"). Em 1 de junho de 1829, ainda com 17 anos, ele submeteu a Academia suas primeiras pesquisas sobre a solubilidade de equações de grau primo. Augustin Louis Cauchy foi designado juiz.

Este ponto da história é bastante polêmico e tem sido um ponto comum de discórdia dentre os escritores que tem escrito sobre Galois. Alguns afirmam que Cauchy perdeu ou esqueceu os papéis e nunca deu uma resposta, "ocasionando um dos maiores desastres na história da matemática". Outros afirmam que Cauchy intencionalmente os jogou fora. Recentemente, surgiram fatos levantados por pesquisadores, sugerindo que Cauchy tinha planejado apresentar o trabalho de Galois na Academia em janeiro de 1830 e que ainda o tinha incentivado.

Infelizmente, nos três anos seguintes uma série de tragédias pessoais e profissionais iria destruir as ambições de Galois. Seu pai, Nicolas-Gabriel Galois se suicidou após uma campanha de difamação realizada por um sacerdote jesuíta. Galois então tenta novamente o reconhecimento de seu talento, enviando para o secretário da Academia, Joseph Fourier, uma nova versão de seus trabalhos. Fourier por sua vez deveria entregá-lo para o comitê avaliador. Outra tragédia ocorre e Fourier morre algumas semanas antes da data da decisão dos juizes, e embora um maço de trabalhos tivesse sido entregue ao comitê, o de Galois não estava dentre eles. Galois achou que seu trabalho fora propositadamente perdido devido às orientações políticas da Academia. Uma crença que foi reforçada no ano seguinte, quando a Academia rejeitou seu manuscrito seguinte, alegando que "seus argumentos não eram suficientemente claros nem suficientemente desenvolvidos para que possamos julgá-lo com rigor". Galois concluiu que havia uma conspiração para excluí-lo da comunidade matemática. Em conseqüência disto ele passou a negligenciar suas pesquisas em favor da luta pela causa republicana.

No dia 4 de dezembro de 1830 Galois tentou se tornar um rebelde profissional alistando-se na Artilharia da Guarda Nacional. Tratava-se de um ramo da milícia conhecido também como "Amigos do Povo". Antes do fim do mês o rei extinguiu a Artilharia da Guarda Nacional e Galois se viu desamparado e sem lar. Enquanto a paixão de Galois pela política continuava, era inevitável que sua sorte deteriorasse ainda mais. Galois ficou detido por um mês na prisão de Sainte-Pélagie após ser apanhado segurando um punhal e realizando um brinde ameaçador ao rei em um banquete republicano. No Dia da Bastilha Galois marchou através de Paris vestido com o uniforme da proscrita Guarda da Artilharia. Galois foi então sentenciado a seis meses de prisão e então voltou para Sainte-Pélagie. Em março de 1832, um mês antes do final da sentença, irrompeu uma epidemia de cólera em Paris e os prisioneiros foram libertados. O que aconteceu com Galois nas semanas seguintes tem motivado muita especulação, mas o que se sabe com certeza é que a tragédia foi o resultado de um romance com uma mulher misteriosa, chamada Stéphanie-Félicie Poterine du Motel. Stéphanie estava comprometida com um cidadão chamado Pescheux d'Herbinville, que descobriu a infidelidade de sua noiva e desafiou Galois para um duelo ao raiar do dia. Galois conhecia muito bem a perícia de seu desafiante com a pistola. Na noite anterior ao confronto, que ele acreditava ser a última oportunidade que teria para registrar suas idéias no papel, ele escreveu cartas para os amigos explicando as circunstâncias.

Em uma tentativa desesperada de conseguir um reconhecimento, ele trabalhou a noite toda, escrevendo o teorema que acreditava explicaria o enigma da equação de quinto grau. As páginas eram, na maior parte, uma transcrição das idéias que ele já enviara a Cauchy e Fourier. No final da noite, quando seus cálculos estavam completos, ele escreveu uma carta explicativa ao seu amigo Auguste Chevalier, pedindo que, caso morresse, aquelas páginas fossem enviadas aos grandes matemáticos da Europa.

Na manhã seguinte, quarta-feira, 30 de maio de 1832, num campo isolado, Galois e d'Herbinville se enfrentaram a uma distância de vinte e cindo passos, armados com pistolas. D'Herbinville viera acompanhado de dois assistentes. Galois estava sozinho. Ele não contara a ninguém sobre seu drama. Um mensageiro que enviara ao seu irmão, Alfred, só entregaria a notícia depois do duelo terminado. E as cartas que escrevera na noite anterior só chegariam aos seus amigos vários dias depois.

As pistolas foram erguidas e disparadas. D'herbinville continuou de pé. Galois foi atingido no estômago. Ficou agonizando no chão. Não havia nenhum cirurgião por perto e o vencedor foi embora calmamente, deixando seu oponente ferido para morrer. Algumas horas depois Galois foi levado para o hospital Cochin. Era muito tarde, já ocorrera uma peritonite e no dia seguinte Évariste Galois faleceu.

 

voltar |