FLORISMUNDO JOSÉ DE OLIVEIRA, Farmacêutico

Farmacêutico Prático, autorizado pelo CRF, proprietário e responsável farmacêutico da Pharmacia Oswaldo Cruz, Av. Antonio Japiassú, Arcoverde-PE. Nascido em Alagoa de Baixo (Sertânia,PE), em 10.06.1901 e falecido em Arcoverde em 04.04.1992. Calmo, paciente, bondoso, compreensivo. Pioneiro, possuiu durante anos, a única farmácia da cidade. 


Florismundo José de Oliveira

TEXTO: A PARTIDA DE FLORISMUNDO

O meu livro "Baú de Arcoverde" contém muitas omissões. A maior delas é sem dúvida omitir, tanto na série "Nossa Gente" como no "Baú do Passado", a figura de Florismundo de Oliveira e da sua Pharmacia Oswaldo Cruz. Confesso que essa omissão se deu mais por incapacidade que por descaso. Tentei várias vezes escrever sobre o assunto, mas não consegui, achava que os textos estavam ruins, não faziam justiça ao que representava para Arcoverde a figura de "Sêo Floris" e da sua Farmácia. O fato é que quando olho para a capa do livro sempre me lembro de que ele está incompleto. Como é que se pode escrever sobre Arcoverde e omitir algo tão importante? Quando recebi a notícia da partida de "sêo Floris" tive o mesmo sentimento de quando fui notificado da partida de tia Izaura (esposa dele), do tio Nelson e da minha avó, dona Neném. É como se a gente entendesse que um ciclo se fechou, que uma pessoa muito querida partiu para outro estágio de vida. Sempre que recebo esse tipo de notícia me recordo de um livrinho que minha tia Izaura deu a meu pai, onde havia um título que nunca esqueci: "A morte não interrompe a vida". Acho que essa é a chave para a compreensão do fenômeno da morte física, a qual é apenas passagem para outro plano de vida. Eu sei mesmo que essa abordagem do assunto é muito superficial, mas é nisso que eu creio, e isso me basta. "Sêo Floris" foi uma figura simpaticíssima. Junto com a sua esposa, dona Izaura, formavam o casal mais tranqüilo e afinado que conheci.

Como era bonito vê-los! Que serenidade passavam! Que relacionamento bonito! Florismundo foi o exemplo de cidadão. Foi o grande cidadão de Arcoverde. Um cidadão completo: íntegro, honesto, trabalhador, educado gentil e solidário. Penso que ninguém nunca o viu com raiva, com um sentimento menor, se desentendendo com quem quer que fosse. A sua Farmácia, já se disse certa feita, era a ONU de Arcoverde. Sim, porque naquelas cadeiras sentavam pessoas de mais variadas tendências políticas e nunca discutiam. Ali reinava a paz, ninguém brigava, é como se aquele local fosse uma zona neutra que todos respeitavam, respeitando, sobretudo, aquele homem baixinho, sempre de gravata, com aqueles olhos de míope que lembravam um intelectual, mas com aquela simplicidade do nosso homem comum, com aquela educação fina, sempre mexendo naquelas fórmulas de remédios, mas sem se descuidar de atender ao balcão e conversar com os amigos. Todas as vezes que eu entrava na farmácia ele perguntava: "O que é, molóide? Já doente de novo?", e me despachava dois Filinasma e dois Asmac, sem esquecer de emendar: "Esses comprimidos não servem para nada, molóide". A posição política de "sêo Floris" sempre permaneceu secreta, nunca ninguém soube do seu partido. Certa vez, no antigo "Senadinho", um dos "senadores", me parece que Dadá de Cravo, afirmou que ele tinha jeito de quem formava no "time do lenço branco, do Brigadeiro", isto é, na UDN, mas foi só especulação. Já que os demais membros do "senado" ficaram calados, a posição dele permaneceu um mistério. Na minha opinião ele preferiu exercer a sua cidadania dando exemplo de cidadão correto, cumpridor dos seus deveres, homem de bem acima de quaisquer suspeitas. Se eu tivesse de apontar um exemplo de cidadão e de caráter em Arcoverde, não hesitaria em apontar Florismundo Oliveira.

Infelizmente, como tudo na vida terrena tem prazo certo, nada dura para sempre, ele se desfez da sua "Pharmacia", mudou-se para outra rua, ficou evidentemente mais velho, chegou aquele tempo que teve que descansar e curtir sua velhice. Porém, mesmo depois da partida da sua esposa, minha tia Izaura, ele esteve sempre lúcido e forte, sempre fazendo suas caminhadas, até que chegou o momento em que adoeceu e se encantou. Digo se encantou, parodiando Guimarães Rosa, porque pessoas como Florismundo não morrem, elas são tão íntegras e tão puras que mesmo em outro plano de vida ocntinuam nos acompanhando, quem sabe a esta hora ele não estará lendo estas mal-traçadas e, dando um pigarro, afirmando: "Esse molóide não tem jeito não, para que escrever essas coisas?". Simplesmente para tentar pagar um débito impagável junto ao senhor, "sêo Floris", personagem inesquecível do meu Arcoverde.

(Crônica do jornalista William Porto, transcrita do JORNAL DE ARCOVERDE - edição do dia 1
o de junho de 1992)

Registro n. 00093, Janeiro 1963.

 

CRÔNICA: UMA CARTA AO MEU PAI

Meu pai,


Fui surpreendido esta semana com a triste manchete nos jornais: o super-homem morreu! Ora, há uma confusão enorme. O super-homem, ao que eu saiba, era um homem singelo; baixinho, de óculos e gravata. Plácido, soberbo, majestoso. Em minhas anotações, ele está lá. Não haveria inverdades nessas notícias apressadas?  Fico preocupado. Mas Clark Kent não era reconhecido por ninguém ao simples fato de colocar óculos... É como ocorre com Dom Diego e Zorro! Admirável! Isso é genuinamente verossímil, embora inacreditável. Só mais surpreendente que estas elucubrações é o fato que “seo Floris” nunca foi reconhecido pela maioria dos arcoverdenses, com ou sem sua gravata! Meu herói nunca brigou com vilões. Tampouco com quem quer que seja. Jamais sequer elevou a voz. Benévolo, voluntarioso, verdadeiro gentleman, na acepção do termo. Confesso baixinho, apenas aos idosos: Cá para nós, o super-homem sempre existiu. Digam-no os arcoverdenses que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Jovens: agora que asseguram-no morto, sua identidade secreta pode (até) ser revelada; mas vós não sabereis quem foi Florismundo José de Oliveira. A ti, um abraço, pai. Certamente a notícia é um verdadeiro choque. Contudo, espero que nenhuma pessoa guarde mágoas pela revelação dessa identidade secreta. Afinal, tupiniquins, muitos poderão pensar: super-herói tem necessariamente que ser internacional, forte e enfrentar (de uma única vez) um magote de "bandidos". Batman. Rambo. Sr. Presidente dos EUA... Brasileiro mesmo é Jeca Tatu ou Macunaíma. Meu beijo.

Recife, 14 de Outubro de 2004.
Hélio Magalhães de Oliveira

 

 

FLORISMUNDO & IZAURA