Pictura altera
Nuno Iudice
(accommodatae: H.M. de Oliveira)

Scio inferos:
frigus, super terra,
fragmen ligna,
ossibus fractis per hiemem.

Mortui nos:
in quo sunt, et vocate nominum,
in sibilum,
et in vento dispersi sunt.

- O cupressi de musica.
Sic, sunt qui ambulant in sepulchris,
et vesperum cum texit aures,

Sunt enim quidam, qui, quæso, inter labia
et cum ab antiquis temporibus in lapides;

Nullus sequitur umbra sua,
timere eo evanescit sub novum herba.

Caligo memoriam, me cruciando in abscondito speculo
- In angulus ex me conceperat pallentemque.

Indica mihi, quod est nomen eius,
absque oculis, ore, capillos qui quondam?

OUTRA IMAGEM.
Nuno Júdice

Conheço o mundo dos mortos.
É frio, com terra por cima,
restos de tábuas,
ossos desfeitos pelos invernos.

Os mortos vêem-nos:
de onde estão, eles chamam pelos nomes
familiares, num murmúrio,
e o vento dispersa-lhes os sopros

— música de ciprestes.
Por isso, há quem ande entre as campas,
ao fim da tarde, com os ouvidos tapados;

há quem quem reze, entre lábios,
datas estéreis como as antigas pedras;

há quem persiga a própria sombra,
temendo que ela desapareça sob a erva fresca.

Memórias vagas e finais, atormentando-me num secreto espelho
- no canto de mim, absorto e pálido,

há quem, me diz o nome, em silêncio,
sem olhos, sem lábios, sem os cabelos que outrora toquei?