Ad scribere carmen
(accommodatio: H.M. de Oliveira)
Nuno Iudice, Ab "A Matéria do Poema”, (MMVIII)

Poeta ad scribendum cupit avis:
avis effugiat cuius carmina.

Poeta ad scribendum cupit pomi:
cadit et pomi ex ramus.

Poeta ad scribendum cupit flos:
et aridam flos intra amphora de stantia vers.

Itaque poeta custodit verba
ita ut avis fugere non.

Ita poeta vocat serpentis
ad mordebit pomi persuadet Evam.

Sic poeta obicit aquam in versibus
ita ut non marcescit flos.

Sed avem non canit,
cum clauderem caveam.

Ita serpens non dereliquimus terram
Evam quia timebis et serpentium.

Et aqua agere flos vivos
influit per vers.

cum penna poeta, et tunc
avis volare
Evam fluebat in pomorum
et omnes flores pullulent.

Poeta reversus ad calamo colligunt usque,
scripsit quod uiderat:
et carmine factum est.


PARA ESCREVER O POEMA

audio
O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.