ALOCUÇÃO PROFERIDA EM 28/10/02 PELO PROF. H.M. DE OLIVEIRA

Paraninfo da Turma de Engenheiros do Centro de Tecnologia e Geociências*

Formandos UFPE de 2002.1 Turma: Engenharia com Excelência

Representante do magnífico reitor da UFPE, Il.mo Representante do Diretor do CTG, demais membros da mesa e autoridades presentes. Meus senhores, minhas senhoras. Caros formandos. Honra-me assaz encontrar-me na condição de paraninfo de uma turma de jovens que representa o futuro. Acredito em vós, como propulsores da sociedade. Investindo-me na posição de Paraninfo, quisestes conceder tal prestigiosa honraria e rogo-vos que acrediteis que sou sensível a tanta honra. De fato, considero-a a maior que se possa outorgar a alguém que se intitula professor. Normalmente, tal posição é atribuída a quem é detentor de grande experiência e freqüentemente requer um vasto legado. Ora, não possuo o dom da oratória, eloqüência, nem posses que justifiquem tal escolha. Meu (limitado) domínio tem sido quase sempre, essencialmente técnico. Se minha contribuição ainda é modesta, ao menos ela provém do âmago e isto, pareceis reconhecer. 
Na universidade, há pesquisadores, cientistas, educadores, professores. Como docente, acolho esta incumbência de paraninfar vossa turma como o melhor dos mimos que poderia receber. Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei, na medida do possível, corresponder à vossa confiança. Afastar-me-ei, entretanto, do domínio em que possuo alguma competência: o domínio técnico. E fora daí, sinto-me um tanto desajeitado1. Asseguro a esta audiência: concluir um curso de Engenharia não constitui uma tarefa trivial. Hoje, vosso vultoso esforço é enfim merecidamente recompensado. Como discorrer sem citar uma aproximação em série de Taylor ou uma análise de Fourier? Coube-me, entretanto, vos endereçar agora algumas palavras. Objetivamente, o que seria oportuno abordar nesta insigne ocasião? Há tantos e tão variados temas, excitantes e provocantes! Apenas para citar alguns, poderíamos abordar "a importância do Engenheiro na Sociedade contemporânea". Ou "Ética e cidadania". Quem sabe um apelo a responsabilidade: "vós sois a elite e agentes das transformações". Talvez ainda mais proveitoso, abordar 
"os desafios que esperam os novos engenheiros". Neste contexto, poder-se-ia tentar traçar "um perfil do Engenheiro", exigências, versatilidade e multi-disciplinaridade. Ou quem sabe, dissertar longamente sobre 
a nossa gloriosa "Escola de Engenharia", que tanto nos orgulhamos de fazer parte.

Valeria não menos um enfoque voltado a comentários sociais e políticos: "A desigualdade, miséria, fome, discriminação, tão inaceitáveis: o que fazer?". Certamente, tópicos atuais com a globalização, as mudanças vertiginosas, o novo milênio, poderiam constituir o foco principal. Não, meus caros! Não desejo nem ouso traçar um pretenso perfil do que vos espera, muito menos ministrar lições de como deveis vos comportar. Lições para vencedores do tipo: "sejam sempre otimistas", "projetem o que desejam", "ambicionem", "sonhem", ou outras regras de comportamento com sucesso tampouco me interessam tratar. Receituários, chavões, clichês. Não que os julgue de pouca monta ou valia. Porém antes de vos saudar, em meu nome e em nome dos demais paraninfos2, creio que como engenheiros, vale questionarmo-nos criteriosamente sobre o que fazemos nesta ocasião. Trata-se essencialmente de um ritual de passagem. O porquê desta cerimônia? Para marcar o fato, permitir relembrá-lo posteriormente, e prestar homenagens a quem foi peremptório neste aprendizado: Os pais, responsáveis, cônjuges, colegas e docentes3. Cabe também um momento de reflexão e quiçá uns parcos aconselhamentos. Por conveniência, abordarei o tema citando o étnologo e escritor francês Georges Battaille. A vida caracteriza-se por uma sucessão irregular de descontinuidades, intercaladas por períodos de continuidade. As cerimônias são características de ocasiões formidáveis, que marcam as descontinuidades. Exemplos destas situações incluem o nascimento, o vestibular, a primeira relação, a formatura, o casamento, filhos, até a morte. Discorro sobre descontinuidade, adequando-a a linguagem dos Engenheiros. O comportamento da função sofre instantaneamente uma mudança abrupta, e passa a seguir um comportamento diferente. Rompe-se um ciclo! Doravante, sereis Engenheiros. O quanto nasceu aqui! Quanto foi construído neste tempo de continuidade! Decerto, todos temos a nostalgia da continuidade perdida. Há um ar de saudade, um "que" de perda, um temor e um gosto inquietante 
de desafio e de futuro.

Tecnologia. Ah, maravilhosa tecnologia! O que nós abraçamos? O agente da riqueza, das transformações, 
do conforto e do bem-estar para os homens. Definimo-la como o estudo de técnicas cujo objetivo capital é aprimorar a vidas das pessoas. Gostaria de relembrar-vos que em longo prazo, a tecnologia é benéfica. Se hoje ela discrimina e não é acessível à maioria, amanhã ela o será. Embora assim seja, quase nada avançamos nos valores básicos. OS TEMPOS DE HOJE SÃO AINDA OS TEMPOS DE ONTEM (corrupção, poder, crises mundiais, exploração, inquietações da alma...). Se a Tecnologia há muito avançado, o mesmo progresso não se verifica no coração humano. Permitais-me pois vos lembrar que a Engenharia nunca deve se satisfazer em ser "unimensional".

Paira no ar uma nova ordem; instala-se progressivamente um novo modelo para as universidades brasileiras. Nele, só há lugar para empreendedores e negociantes. Pesquisadores devem ser captadores de recursos, ao invés de cientistas. Numa visão míope, domina o imediatismo dos resultados. Há uma paulatina metamorfose de IES em escritórios de prestação de serviços. Há muitas cátedras, mas praticamente não há uma carreira acadêmica. E considero que gradativamente nos afastamos do academicismo e rigor científico que me conduziram a adentrar neste maravilhoso mundo. Nesta circunstância, não poderia me omitir em traduzir o meu veemente repúdio à gestão e política de educação superior do Ministro da Educação, Ex.mo Sr. Paulo Renato de Souza. Um dirigente que permite que todas as universidades federais permaneçam fechadas4 por um período de seis meses, é no mínimo, irresponsável. Exponho-vos a minha revolta: em meu juízo, nunca houve um ministro tão danoso ao ensino superior. E registro ainda certo desapontamento para com os colegas professores que tacitamente aceitaram o desfecho da crise5. Hoje, considero-me um pouco dinossauro, gradativamente fossilizado. Talvez pelo meu conservadorismo arcaico, quem sabe um reflexo do amadurecimento, de quem não acompanha "os novos tempos". Porém, resistirei. A universidade que acredito não é a universidade dos negócios, mas a universidade do saber.

Esta é também ocasião de memórias. Impossível esquivar-se de uma certa nostalgia. Lá se vão bons 20 anos, quando, tão idealista quanto vós, compartilhei a felicidade de galgar este título de Engenheiro. Que em vós, como em mim, não se extinga a chama. Em inúmeras solenidades estive presente, escutando paraninfos relembrando quando sentaram-se aos bancos, em espera ansiosa, como vós, almejado o diploma. Transporto-me a 1980, aos 21 anos, idealista, jovem, inquietando-me sobre o futuro. Então me decido ousar dirigir-vos algumas malfadadas "prescrições". Apesar da minha precária autoridade para vos aconselhar6, peço licença para expor duas ou três recomendações, mesmo sem maiores expectativas. Não pauteis vossa carreira pelo sucesso, poder ou dinheiro. Antes disto, ponhais emoção em vosso ofício. Eviteis este enorme complexo tupiniquim nordestino. Contudo, não há a mínima necessidade de ser "o melhor", "o maior", "o único". Esta cultura pavorosa está enraizada nos Brasileiros. Imploro-vos, não vos deixeis envolver. É preciso apenas ser (um bom faxineiro aqui da UFPE não parece "famoso" nem "importante", mas merece maior deferência que alguns ministros, excelências e doutores).

A confidência maior: É preciso amar o que se faz. Um bom pintor ama a pintura, um bom poeta, a poesia, 
um bom músico, a música. Se não estais satisfeitos com o que fazeis, nunca sereis pleno. Ainda
mais profícuo nesta ocasião, acredito que seja a mensagem tranqüilizadora: "Não temais as bifurcações na vida". É sempre inquietante quando defrontamo-nos com uma decisão grave como hoje (quo vadis?), que conduz 
a cenários dessemelhantes. Não há caminhos corretos – há somente caminhos diferentes. Não hesiteis em decidir: Qualquer que seja vossa decisão, embora as conseqüências sejam distintas, nenhuma é uniformemente superior à outra – não são comparáveis, apenas díspares. Queridos colegas engenheiros. Posso afirmar solenemente: "Esta é a minha casa
¾ E nela, eu, como tantos colegas, tivemos o privilégio de vos acolher com a mais verídica satisfação". Cabe-vos fazer com que os frutos proliferem e esta universidade atenda ao seu fim precípuo, contribuindo para o desenvolvimento da Nação. A todos vós, particularmente aqueles da maravilhosa turma "Engenharia Eletrônica com Excelência", as mais sinceras felicitações. Permitindo-me um instante pessoal, agradeço nominalmente a Tiago Falk e Danilo Silva, com quem tive a enorme satisfação de trabalhar. Gostaria de arrematar congratulando-me aos vossos pais, artífices desta vitória, e desejando os mais sinceros votos de sucesso profissional e pessoal a cada um. Se, posso sentir-me orgulhoso ter construído algo, confesso que me sinto altivo em ter influído7 em vossas vidas. A vida é uma dádiva – e o futuro é vosso. Se hoje, vós e vossa família estais felizes, confesso-me que também. Muito construístes até o presente e, entretanto, mais que nunca, a vida e o futuro se descortinam. Ides em frente sem medo. O futuro se constrói! Parabéns, queridos ENGENHEIROS.

MUITO OBRIGADO!

Hélio Magalhães de Oliveira, http://www2.ee.ufpe.br/codec/publicacoes.html

URL: http://www2.ee.ufpe.br/codec/alocucao.html

______________________________________________________________________

1gauche, diria o poeta Drummond.
2antes de vos agradecer tanta deferência.
3Eu vos junto para saudar particularmente todos professores homenageados. Colegas que constróem a universidade que acredito, cumprindo sua tarefa essencial: despertar a alegria de trabalhar e conhecer.
4em greve.
5oferta de três semestres capengas em um único ano letivo!
6ou a quem quer que seja.
7ainda que pouco.