Jobson Rocha wrote:

Sobre o assunto da aula passada (futuro), é possível a máquina ter sentimento? Se uma criança, no caso a máquina pré-contruída, aprender coisas erradas, ela pode fazer mal as pessoas?? Poderá haver uma guerra entre humanos e Máquinas? Tais guerras tão comuns nos filmes de ficção, tipo Matrix, Exterminator....

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Prezado Jobson;

Aproveito para enviar uma resposta a sua provocação para os demais alunos do curso. Imprima, leia e reflita.

Uma resposta é provavelmente sim. Note que uso um artigo indefinido, não o artigo definido. E também uso o advérbio provavelmente...

É claro que o assunto é por demais complexo e envolve conjecturas e expectativas. O que acontecerá de facto é uma incógnita. Porém constitui um exercício interessante pensar sobre o assunto. O que significa exatamente "ter sentimentos"? E "ter inteligência"? Temos uma idéia bem concebida, porém a definição formal ou universal é menos óbvia..

A despeito destes fatos, as idéias de escritores de ficção científica sempre desempenharam um papel relevante para Engenheiros. Seus sonhos e pesadelos nos tornam cientes das múltiplas possibilidades da Ciência e da Tecnologia!

Um dos problemas centrais é que o assunto toca em muitas convicções arraigadas. Particularmente, Religião- Fé - Alma. Sentimentos. E temos dificuldades em lidar com tais assuntos. Conceitos que interiormente não aceitamos ou não queremos romper. Junte a isto uma dificuldade (inerente) de entender o tema, e o que queremos dizer. Não é uma igualdade homem/máquina num sentido absoluto.

QVO VADIS?

Imagine que um ser humano essencialmente aprende (registra) fatos e os associa a (prováveis) conseqüências. A vida consiste em, a cada minuto, tomar decisões baseadas em conhecimentos prévios. O mecanismo usual é fazer comparações entre os possíveis resultados (outcome) em função das escolhas feitas. Trata-se de um "jogo". E as máquinas são capazes de jogar! Elas podem jogar Xadrez etc. É claro que o jogo de tomar decisões na vida é um "jogo" bastante complexo, várias ordens de grandeza mais complexo que outros "joguinhos" usuais. Mas pode ser "essencialmente" encarado como um jogo. Assim, dependendo da capacidade da máquina e da sua programação, ela pode jogar um "jogo", cada vez mais sofisticado, envolvendo cada vez mais situações diferentes e próximas d'aquilo que chamamos "realidade humana". Neste paradigma, uma máquina quanto mais poderosa em capacidade (não apenas memória ou capacidade de cálculo), pode começar a "comportar-se" essencialmente como um humano, mesmo não sendo um. A diferença é que nos primórdios, as máquinas eram essencialmente encaradas como calculadoras - com capacidade apenas de armazenamento (memória) e cálculos algébricos / matemáticos.

Os maiores desenvolvimentos apareceram com as idéias fenomenais de um marcante cientista/matemático, que deveria ter seu nome conhecido e reconhecido por TODOS que trabalham em Engenharia Elétrica, Robótica, Computação, Inteligência Artificial etc. O termo que costumo me referir ao trabalho do brilhante do Inglês Alan Turing (1912-1954) é "Magnífico". Sua obra tem um impacto enorme para o futuro. Procure pesquisar algo na Internet sobre o assunto. Garanto que vale a pena!

Nota: Ele participou ativamente da quebra do sistema de cifragem usado pelos alemães durante a Segunda Guerra mundial.

Um dos conceitos marcantes* para estudar o comportamento de máquinas consiste em "esconder" de um observador detalhes sobre "quem é quem". O observador é apresentado a diversas situações em que se defronta com duas "pessoas", digamos João e José. Uma delas é uma pessoa e a outra é uma máquina, porém o observador não sabem "who is who". Se ele for capaz de discriminar claramente quem é o computador, então fica claro que a máquina não "é" um ser humano. Mas, quando o observador não for capaz de discernir quem é a máquina e quem é o computador? Não se tratam de "duas" pessoas? O argumento que uma máquina não pode ser "humana" não procede. Ela não pode ser humana no sentido que ela não tem vida Biológica (não se reproduz etc.). O que somos nós de fato? O que é importante? O corpo? Dizem desde a antigüidade: o corpo é só um suporte temporário para o que somos (alma). O suporte poderia ser diferente. Ouse: Poderíamos viver numa máquina!! É algo similar a idéia que um coração biológico é de fato imprescindível para viver (órgão vital). Porém hoje, já existem pessoas vivendo com um "coração artificial", não biológico (Jarvick-2000 e similares). Qual a distância conceptual entre esta mudança e a "migração" / coexistência entre homem-máquina? Parece-me que é só o longo caminho a percorrer, porém não me parece impossível. O ficcionista Ray Kurzweil, um expoentes modernos no assunto, propõe o aparecimento de uma nova espécie. Experimente por exemplo The Age of Spiritual Machines: Editora Viking [A era das máquinas espirituais: quando os computadores superam a inteligência do homem]. O título é sugestivo! Ou A era das Máquinas inteligentes, do mesmo autor... Outros detalhes tem caminhado nesta direção. O desenvolvimento da Realidade Virtual, por exemplo. Se v. começa a vivenciar fatos exatamente igual ao que v. chama de realidade, mesmo que eles não aconteçam de verdade (sejam virtuais), o que de fato é a realidade? Quando mais poderosos os sistemas de implementação de realidade virtual, mais difícil de saber exatamente a diferença entre o que é real e o que não é. Para seu cérebro, ambos são praticamente a mesma coisa. E a vida seria concebida indiscernível dos moldes que a concebemos. Fatos como este são explorados em filmes do gênero, como Matrix [exageros a parte]. Esta é a parte mais inteligente e brilhante. Extraia os detalhes cinematográficos exacerbados, incluídos para tornar "a coisa" mais provocante.

O que de fato somos? O que é a vida? Uma das abordagens dignas de citação é o Cogito ego sum de René Descartes (1596-1650) em sua magnífica obra "Discurso sobre o Método". Tudo poderia não existir, ser um grande sonho. Quando v. sonha, não tem consciência que o que está acontecendo não é a "realidade". E será que o que chamamos de realidade também não é uma "farsa", tal qual um sonho? (sonho dentro do sonho). Descartes propõe fazer tabula rasa (conceito explorado depois pelo filósofo Inglês John Locke (1632-1704)). Zere tudo que v. concebia previamente. Não aceite nenhuma afirmação ou conceito como verdade. Duvide de tudo e comece a pensar. Neste contexto, surge a idéia: Penso logo existo. Se sou capaz de duvidar até da minha existência, isto é uma prova (digamos, um argumento) na direção que posso dizer que sou algo! Sou algo porque tenho capacidade de duvidar, raciocinar. Não porque vejo meu corpo ou sinto as coisas. O essencial não está no lado biológico (sentidos: tato, visão, paladar, audição). Isto é somente uma interface para o que de fato eu sou. Inclusive podem ser implementados de forma artificial (visão artificial, etc.). Este é o contato com as demais coisas do mundo exterior. A realidade virtual explora estes fatos. Faz com que v. seja capaz de ver, cheirar, sentir e degustar algo que não existe nos moldes que dizemos SER REAL. Chamamos isto de virtual. E para o cérebro, qual a diferença entre o real e o virtual? V. pode "saber" previamente que o que está vivendo é virtual. Mas pode ser de outro modo. A máquina pode passar a incorporar o ambiente externo e os sentidos!!!! (tal como o homem!!!). Deixo para vocês imaginar um bebê que assim que nasce, incorpora "óculos de realidade virtual". O que ele pensaria sobre o mundo? E a "realidade"???. Ele não seria um ser real? Exercite sua mente! Outras idéias revolucionárias no contexto de máquinas, vida e inteligência artificial apareceram com o Brilhante Claude Elwood Shannon (1916-2001). Pesquise. Vale a pena! Shannon foi um dos pioneiros no assunto. Propôs pela primeira vez que máquinas seriam capazes de realizar tarefas "abstratas/lógicas" que até então eram "coisas apenas para humanos". Até então, um computador era concebido (e ainda permanece assim para a maioria das pessoas do mundo - leigos) como um máquina numérica, capaz de "fazer contas" ou "tarefas específicas". O primeiro artigo sobre a possibilidade de uma máquina jogar Xadrez foi escrito por C. Shannon. Ainda hoje os fundamentos descritos são usadas em todas as máquinas capazes disto, incluindo o Deep Blue. Não se cogitava a possibilidade de uma máquina operar assim. Depois de implementado, o argumento dos cépticos foi: Tudo bem. Isso é "jogar Xadrez"! Mas nunca vai superar um homem! E o homem (como esperado por quem entende) foi superado. Uma máquina hoje pode falar com um interlocutor. Falar e traduzir. Há algum tempo, não podia. Mas isto é "falar"! Ora, jogar Xadrez, falar são atividades típica de quem raciocina (Homo sapiens). E a cada novo dia uma tarefa nova típica de humanos é incorporada às máquinas... E será superado em praticamente todas as tarefas: Uma máquina pode fazer melhor qualquer tarefa que o homem é capaz de realizar. Questão de tempo. Shannon propôs que as máquinas seriam capazes de realizar operações com lógica simbólica (isto que as aproximam do homem). Hoje, os programas de Matemática são capazes de resolver uma integral indefinida ou expandir uma função em Série etc. Não são operações numéricas... Shannon foi um dos pioneiros em imaginar a capacidade das máquinas. Foi um dos pioneiros em Inteligência Artificial (com um livro clássico publicado no assunto).

Ele foi o homem que mais contribuiu na área de Telecomunicações - vide resumo na página do Codec http://www.ee.ufpe.br/CODEC/CODEC.html

A idéia não é reproduzir uma máquina que seja biologicamente idêntica a um ser humano, mas que se comporte como tal. Então a diferença entre um homem e uma máquina se reduziria ao fato que somos "vivos". O que é vida? Biológica? Mesmo os biólogos rediscutem uma definição depois dos vírus e príons (leu algo?). Sem falar nos problemas contemporâneos surgidos com o advento da Engenharia Genética [Shannon mais uma vez foi um dos pioneiros: sua Tese de Doutorado foi um modelo Matemático - Engenharia para a transmissão da informação Genética!]. O passo difícil é quando as máquinas passarem a adquirir um certo grau de "consciência Cartesiana". Isto não parece ser impossível (em particular, penso que até provável). Talvez o modelo da fusão homem - máquina seja mais adequado. Inicie substituindo gradativamente "partes" de um Homem. Uma mão mecânica. Um pâncreas artificial, como dispositivo de liberação controlada de Insulina. Um coração artificial e vá adiante. Imagine que no final, resta apenas o cérebro {aquele último bastião...}. Ele é apenas mais um órgão. Por que não poderia ser "substituído"? Vejam os filmes de ficção (meio grotescos, talvez até propositadamente, dado o nível médio dos espectadores) em que um cérebro (uma pessoa, um ser, uma vida humana) sobrevive sem corpo. Normalmente vê-se apenas o cérebro imerso em líquidos e ligado a uma máquina. Este estereotipo é ainda mais comum em desenhos animados. Esta é uma herança do fato que associamos rudimentarmente raciocínio/vida ao cérebro de material biológico. Tememos simplesmente perder a identidade humana! Daí porque os autômatos / andróides dos filmes têm, via de regra, uma aparência quase-humana. Tal um Deus, o criador (homem) reproduz a sua criatura (robô) à sua imagem e semelhança... A pessoa poderia sobreviver numa máquina - computador! Tudo isto pode parecer aterrador, mas é bem verossímil.

Um outro gigante no assunto da "ligação" homem-máquina, foi o gênio americano Norbert Wiener (1894-1964), Engenheiro Eletricista aos 12 anos e PhD aos 18 anos, conhecido principalmente como criador da Cibernética. Esta ciência estabelece os fatores comuns dos processos de controle e comunicações em organismos vivos, máquinas automáticas e organizações. Neste contexto começa de fato a aparecer a idéia de homem biônico etc. A longa caminhada para a convergência homem - máquina e compreensão dos mecanismos envolvidos na vida humana começam formalmente. Outro cientista cujas contribuições foram decisivas para o avanço das máquinas (operação e inteligência) e da concepção dos processos envolvidos na vida foi o fantástico John Von Neuman (1903-1957), criador da Teoria dos Jogos, elemento essencial em todos os modelos modernos de inteligência artificial, além de ser conhecido como um dos pais do Computador Digital. Suas profundas contribuições continuam rendendo frutos, constituindo um legado importantíssimo na Computação, Robótica e Engenharia. Em particular, a noção de função utilidade de Von Neuman permite incorporar no processo decisório das máquinas atitudes compatíveis com humanos.

(N.B. Von Neuman foi o orientador de Doutorado de Turing...).

Todos estes desenvolvimentos geram discussões acaloradas- uma mudança no paradigma. Imagine e relembre detalhes do affair Galieu Galilei (1564-1642) ou Charles Robert Darwin (1809-1882). Não sejamos reticentes aos avanços da Ciência. É necessário discutir e estabelecer regras para o bom controle das coisas, porém NUNCA ser radicalmente contra ou céptico. Particularmente, agrada-me o argumento do pesquisador Adam Schaff em seu texto "A Sociedade informática [Wohin führt des Weg] 1993" ao Clube de Paris: "Nenhuma tecnologia é má per si. Tudo depende de como a utilizamos". E conclama a jamais posicionar-se contra a Tecnologia. Apenas a discutir os efeitos (ética) na sociedade. Outro exemplo conhecido é a tecnologia nuclear. Quantos protestos (às vezes coerentes e preocupações corretas, às vezes pura histeria) quando do nascimento da idéia!! Ela pode ser um passo decisivo para a fusão nuclear (ou fusão a frio) que pode ter conseqüências dramáticas (e fantásticas) para o futuro da Sociedade.

Relembro a marcante frase de maior escritor de ficção de todos os tempos, o Francês Jules Vernes (1828 1905):
"Tudo que um homem pode conceber, outros poderão um dia realizar..."

Senhores: O futuro os espera!

Não sejamos limitados. O futuro, nós o construímos...

Votos de sucesso.

Hélio Magalhães de Oliveira, Docteur ENST Paris

Professor Adjunto do DES.
 
 
 
 

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*O famoso teste de Turing, enunciado em 1950, estabelece (sic):

It is proposed that a machine may be deemed intelligent, if it can act in such a manner that a human cannot distinguish the machine from another human merely by asking questions via a mechanical link.