verbum
(accommodatio: H.M. de Oliveira)
Nuno Iudice, Ab "res simplicissima”,

Ponam uerba super mensam; et ego committam
ut serviatis eis, praeciderunt in crustae,
syllabatim per eos ad os – ubi ad crustulum
uerba vertere, et tunc cadent in mensa.

Sic loquebatur unusquisque, nos uerba commutanda;
furtum alia uerba, cum non habemus;
et da uerba in excessu:
in omnia colloquia abundetis uerbum.

Quaedam vero sunt quae sunt super tabula, quando
sumus relicto. Ut frigus, in noctem mutantem; fenestram
aperit humo uentus inflat. Postridie
ad quisquiliis, scopabo eam.

cum ego abiit, si essent uerba
in mensa; custodiens eos, quis non exara.
custodiens eos, quis nemo advertere.
Deinde serva eos in perscriptorem carmen.
uti uerbis in posterum diem.



VERBO


Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.